Saturday, March 25, 2006

 

O GENERAL, O MEU PAI, O TEATRO MICAELENSE E A BENEDITA DAS RENDAS

Quando em 1976 tomei posse, como professor eventual com habilitação própria, da cadeira de Filosofia no então Liceu Nacional de Ponta Delgada, passei a ser considerado por meu pai uma pessoa de respeito, isto por pouco tempo, uma vez que eu não alinho com esquemas de promoção social de qualquer tipo. Para mim as pessoas são todas iguais em princípio. Depois, se se transformam em "micaleses de fila" corto com elas. Depois de ter assinado o contrato, fui ter com meu pai que me esperava na antiga cervejaria Melo Abreu. Tive, pela primeira vez, autorização para beber duas canecas de cerveja na sua presença e em público. Tinha trinta e seis anos... Com a intimidade das canecas mais a minha nova postura adquirida, meu pai abriu-se comigo e contou-me a seguinte história: na Segunda Guerra Mundial, era ele tenente miliciano no exército, e estando numa parada no Quartel de São João, que mais tarde deu lugar à construção do Teatro Micaelense, quando foi reconhecido pelo general que comandava as tropas. Meu pai tinha sido seu aluno no Instituto Industrial de Lisboa. Daí a ter sido encarregado das construções dos hospitais militares foi um instante. Contou isto mais aquilo até que chegou ao ponto da história que vos quero relatar, porque penso que ela é importante, para ajudar o Director Regional da Cultura a justificar o embargo das obras que a Câmara Municipal de Ponta Delgada entendeu encetar e ajudá-lo nas investigações arqueológicas do lugar que tem dado tanto que falar. Numa determinada noite, vésperas da Consoada, o general sentindo-se muito só, chamou um sargento que tinha fama de conhecer lugares de má nota e pediu-lhe que lhe arranjasse uma coisa tenrinha para matar as saudades da família. O sargento sentiu-se promovido e para mostrar-se digno de tal ascensão na carreira das armas foi de pronto tentar arranjar munição ao nível de oficial general. É preciso esclarecer que o sargento era conhecido do general porque no continente o pai do sargento era feitor nas terras do general. Feitas as buscas na famosa Rua do Beco, o sargento arregimentou uma moça novinha em folha de duas mãos, de seu nome Benedita. Também chamada de Rendosa porque recebia do noivo da América, com quem estava apalavrada, calcinhas de renda em "nylon" - ou coisa parecida. Não só o general gostou da mocinha de programa (desculpem-me esta terminologia) como lhe pagou a preço de muitos escudos salazaristas (moeda fortíssima) as calcinhas. Consolado na Consoada, o general, como que milagre apaixonou-se e até certo ponto foi retribuído. Tinha uma pele muito fina apesar de entradote na idade, lavava-se muito, era dum trato elegante - descendia da velha nobreza portucalense - era como se costuma dizer nos salões da fidalguia, um cavalheiro. Utilizou esse amor várias vezes, pagando sempre muito bem, claro. Um dia a guerra acabou, e por via disso o amor do sexagenário general, que não era nenhum tolinho, note-se. Além de fidalgo, o general lia muito o pervetido Eça. E, foi debaixo das instruções queirosianas que ele para não cair na esparrela do Raposão, personagem da mítica "Relíquia", evitou levar consigo as rendas bem cheirosas da Benedita. E foi um general muito choroso, quem voltou a chamar o sargento "Pipi" para lhe ordenar que arranjasse uma caixa de Pau Santo (havia muito dessa madeira nos Açores, pois era com ela transformada em caixotes que chegava o açucar brasileiro dos engenhos). Ordenou o general que depois de a caixa estar pronta fosse enterrada em lugar secreto, contendo as calcinhas da Rendosa juntamente com um lenço seu debruado com o brasão de família. Debruado a oiro, diga-se em abono da verdade histórica. Ora bem. Parece-me que se justifica, a paragem das obras para vermos até que ponto, o Pau Santo da caixa do general se manteve intacto, contendo as preciosidades referidas. É Claro, que por cada dia que passa, com as obras embargadas por via dos putativos e históricos achados, a Drª. Berta Cabral encherá cada vez mais a urna da sua credibilidade política com os votos dos que desesperam por ver aquilo que é óbvio e necessário para Ponta Delgada.
MMB - Texto oferecido para publicação exclusiva no "CORREIO DOS AÇORES"

Comments:
Então venha dai essa estória da história.
 
Absolutamente delirante este post e este blog. Vou anexar aos meus favoritos com consulta diária.
 
Eu é que agradeço.Sou um novato nestes assuntos.
MMB
 
A história é fantástica, oportuna e muito bem escrita. Vou também anexar o blog ao Entramula!
 
Mélito.
O que é feito desta Benedita? Eheheh
 
Fantástico blog.
O Director Regional da Cultura não conheceu a Rua do Beco e o seu legado.
Força MMB.
 
É delirante e relaxante... Bom humor já por aqui ia faltando... Conheço-o e respeito-o desde a audaz candidatura a PDL e a sua proposta INOVADORA de colocar um só sentido na Avenida... Mas essa outra de só poder beber uma cerveja com seu pai, em público, aos 36 anos, é verdadeiramente um ESPANTO...
 
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