Thursday, May 11, 2006

 

. "DENSIDADE CULTURAL" - FARINHA DE MILHO TORRADO.

Um dia, numa das raras visitas que fiz a meu avô da cidade, aprendi uma baboseira que ainda hoje tenho dificuldade em perceber. Embora nunca tivesse ouvido da boca dele qualquer frase de ordem política eu pressentia que meu avô era fascista. Numa tarde de domingo, fui pedir a benção a minha santa avó Angelina, (para ela todos eram iguais: netos, pedintes, filhas, cães, galinhas. Tudo menos o único filho macho que era uma espécie de divindade, tipo Novo Testamento. O tio Cristóvão. Nunca gostei dele! Um pedante. Gastou o que era dele e das irmãs) e ela disse-me para ir cumprimentar o Avô Carlos que estava no seu escritório sentado à secretária lendo não sei bem o quê. Bati ao de leve na porta. "Entre!" ( o meu avô espirrava assim: Atchéuuuuuu. Naturalmente fora o dinheiro que lhe tinha transformado o espirro - coisa de humanos - numa espécie de chegai-vos para lá.) Beijei-lhe a manápula esquerda, aquela que ele sempre me estendia quando eu, sem poder fugir, tinha de a beijar em nome de Deus Pai, do Filho e do Espírito Santo. Silêncio. Não sabia que dizer perante um homem que tinha metro e noventa e um centímetros e que me metia medo. Nunca o vi rir! "Sente-se!" Acomodei-me numa cadeira de buraquinhos de palha em frente à sua secretária. Mal cruzei as pernas ouvi uma prelecção de como estar em frente de um avô... Descruzei-as. Não sabia nada de pernas a não ser a das criadas quando as tinham ao léu. Era pelo menos o que meu primo Zeca (já falecido) me ensinara. Só um ano depois é que me apercebi do valor daquilo que me parecia uma fechadura do portão da quinta do meu Avô da Vila. Quando ele (o avô da cidade) me autorizou, saí. Tinha treze anos. Morreu meses depois. Chorei porque vi minha mãe chorar com as irmãs. Não vi meu tio nessa altura. Mais tarde soube que andava às voltas com o cofre do velho. Morreu. Que alívio! Não devia dizê-lo. Saiu, saiu. O meu avô Carlos, que era irmão de um padre - o Tio Padre, como era recordado pelas minhas tias como um santo e que passavam as tardes na saleta a falar dos filhos - era uma pessoa que eu era incapaz de o imaginar a fazer sexo. Raça ariana, "Arbeit Macht Frei", (onde é que eu já vi isto) sem expressão amena, carrancudo, medonho. Respeitador da ordem salazarista. Para os que trabalhavam com ele não havia horário de trabalho. Se um dia ele soubesse que eu tinha apalpado a criada de fora ( penso que era aquela que lhe fazia a vira da cama. Não vou explicar. Procurem no Gaspar Frutuoso...) a mando do meu primo Zeca que era mais velho do que eu dois anos. E que anos!) mandava-me açoitar. Lembro-me de quando ele chegava ao pé de mim com sabonetes e meias de "nylon" para oferecermos às criadas de fora e de dentro em troca de favores. E eu sem perceber nada do esquema. Só dois anos depois é que me apercebi do valor que ele dava a estas oferendas. Cresci! O que é que eu podia fazer se antes de adormecer tinha as Glórias ao Pai para debitar em surdina, tendo em conta os êxitos futuros nos estudos... e a salvação da minha alma de pecador. Meu primo ensinou-me todas as coisas que ele próprio fazia questão de demonstrar. Era um empirista. Aprendi. Estou-lhe grato. Foi o meu primeiro mestre. O único que recordo com saudade. Apresentou-me com o cerimonial da época à dona Leonor Augusta Freire, dona de um bordel. Eu tremia como as varas verdes. Tive forçosamente que fazer má figura. A assistente Anália, que era temente a Deus e tinha muita fé no Padre Cruz foi quem, depois de bem recompensada com as moedas de prata do Avô da Cidade (surripiadas com a estratégia secreta de meu primo irmão e com a minha cumplicidade) e com as meias e os sabonetes como engodo, me ensinou como mareante esclarecido a descoberta daquilo que os machos procuram e que eu precipitadamente infantilizei. Sabia lá! A doutora Marta ainda não falava no antigo canal da Igreja e eu nunca tinha visto sair do meu falo mais do que mijina. A ignorância mata os curiosos! Continua. Portugal XXL pode esperar como tambèm a análise filosófica à entrevista do Representante. Coisas menores, comparadas com a farinha de milho torrado do meu Avô da Vila e do que ela trouxe como "elemento denso à cultura" da carne, nas então Ilhas Adjacentes...
Manuel Melo Bento
Quinta-feira
11/05/2006

Comments:
À farinha de milho torrado o canarinos chamam gofio. Fui ressuscitada e faz parte das receitas "más esquisitas".
Sendo da Ribeira Grande, se é quye isto importa, bem me lembro das criadas de fóra. Foi lá "fóra" que fiz a minha escolinha
 
P.S. - Estes acentos no fora não são mal intencionados...
 
excelente prosa, um verdadeiro prazer. Continue a escrever dr. Melo Bento!!
 
Por favor, congregue todos estes posts num livro, no fim deste ano, se possivel. E não se esqueça de vender o livro nas comunidades. A malta gosta de si.
 
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