Wednesday, September 27, 2006

 

NA SERVIDÃO DO DESEJO
Continuação de 26.9.06

SOGRA
(Grita do quarto)
Inocência, minha querida neta, que vai ser de mim agora!

(Inocência entra na viatura e do banco traseiro acena para a mãe. O pó que o carro faz levantar da estrada de terra envolve a Camponesa e seca-lhe as lágrimas.)
III
(No sótão de uma casa citadina é meia noite. Inocência é a última a chegar. Vem cansada. Esteve a trabalhar desde as seis e meia da manhã.)
AURORA
(Sentada no bacio, urina.)
Aquela nojenta da Dona Laura não me largou todo o dia. Primeiro foi a sopa que estava salgada e fria. Depois foi a carne assada que não estava como de costume. Estava dura! Nem que fosse eu a vaca! O que ela disse da sobremesa... Estava tudo um horror! Cadela! E comeu tudo como um alarve.
MATILDE
(Desfazendo o carrapicho encanecido)
Tens sorte, os tempos são outros! Quando vim para cá puseram-me na cozinha às cegas e como não lhes fazia a comida a jeito era raro o dia que não apanhava pela cara. Foi a mãe da senhora quem mais me bateu.
AURORA
Nem mesmo assim deixaste de lhe lamber o cu quando ela adoeceu. E no dia que morreu choraste e berraste que nem uma cabra como se ela fosse tua mãe. Quem te desse!
MATILDE
Vivi mais tempo com ela do que com minha mãe. Que havia de fazer?
AURORA
(Levantando-se do bacio)
Esta (atira os calções à cara de Inocência) não vai ficar por cá por muito mais tempo. Se não fazes o serviço como deve ser, estás aqui está no olho da rua. És mesmo uma desgraça a servir à mesa!
INOCÊNCIA
(Deitando-se, olha para o tecto)
A senhora Aurora se estivesse no meu lugar também ficava sem saber o que fazer. Lá em casa, o que há para cada um é uma colher de pau. Garfo, só meu pai é que tem.
MATILDE
E facas para cortar a carne?
AURORA
(Gargalhando)
Só se fosse carne de morto!
INOCÊNCIA
Credo, senhora Aurora! Apesar de tudo, minha avó contou-me que comeu carne de vaca quando era nova.
AURORA
(Com ar escarnento)
Se calhar era bife!

(Continua amanhã, 27.9.06)

Comments:
Ah Manuel, Ah Manuel- tás a falar mal de mim?
 
Ah Manuel, Ah Manuel- és muito irrequieto!
 
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