Thursday, October 05, 2006

 

NA SERVIDÃO DO DESEJO
Continuação

SOUZA
Falava francês e tocava piano admiravelmente. Um primor!
MÁRCIA
Meu pai era um homem muito preocupado com a educação dos filhos. Para além de nos fazer muita companhia, fazia-nos respeitar os ensinamentos, mandamentos e os sacramentos da Santa Madre Igreja. Casei-me preparadíssima.
SOUZA
Outros tempos!
LAURA
O meu namoro foi à janela.
EMÍRCIO
Janela alta. Depois veio a confiança cá no rapaz. Tinha acabado de me formar. A janela desceu, as palpitações subiram. Um toque de mão e tudo virava dentro de mim.
LAURA
Que respeito havia naquele tempo! Do toque e dos olhares esperou-nos o altar.
MÁRCIA
Meu pai foi muito liberal. Passávamos os Verões no Vale das Furnas e dávamos passeios no Parque.(Olha para Souza que procura nos bolsos do colete o relógio.)
EMÍRCIO
(Dirige-se a Souza agarrando com uma das mãos a garrafa de Porto)
Vai mais um, caríssimo?
SOUZA
O último!
VIII
(No sótão, pela noite dentro.)
MATILDE
(Coloca uma toalha molhada em água na testa de Inocência e fala para Aurora.)
Esta pequena não está bem. Tem a barriga muito inchada.
AURORA
Aquele porco malvado, filho de sacristão lambezudo, há-de pagá-las e bem. (Aponta para Inocência) É isto coisa de um cristão?
INOCÊNCIA
(Delirando)
Mãe, olha para o Jerónimo. Chegou tão gordo... tão perfeito...
MATILDE
Que se pode fazer? É a vida! Eles podem tudo.
AURORA
Podem, uma merda! Ainda um dia destes os enveneno a todos.
MATILDE
Credo em cruz mulher!
AURORA
Se continua assim (coloca a mão na barriga de Inocência) eu vou acordá-lo.
MATILDE
Deixa isso para amanhã! Ainda te vais meter em sarilhos.
AURORA
Não é a primeira que se vai desta para melhor, por isso e por muito menos.
Continua

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