Tuesday, March 06, 2007
PROFESSORES AO PONTAPÉ
Não é fácil ser imparcial quando se fala de uma matéria da qual somos juízes em causa própria. É o que vai acontecer com este texto. Tendo sido profissional do ensino público durante vinte e tal anos, tenho, efectivamente, alguma coisa a dizer sobre os últimos acontecimentos que colocam os professores no centro de um furacão que põe em causa toda uma civilização. Tive sorte, pois nunca fui agredido. Porém, tive conhecimento de um caso em que o pai de uma aluna forçou a entrada na escola onde eu trabalhava para procurar tirar satisfação sobre uma chamada de atenção oral feita por um professor à sua educanda. O “senhor” queria bater no professor. Afirmou-o claramente do alto de um metro e noventa e uns quilos à Tallon. E, só não o conseguiu porque não encontrou o docente no estabelecimento e como o tempo foi passando através de um diálogo dissuasor o “senhor” Encarregado de Educação esfriou. A discussão sobre o tema teve lugar num gabinete apropriado onde um professor (que não era o procurado) começou por aceitar ser “legítimo” o comportamento do putativo agressor. Depois, resolveu inquirir a discente das razões porque se queixara ao progenitor. Pergunta aqui pergunta ali, a aluna, uma grandalhona com problemas de adaptação, foi-se descaindo até ficar com a careca à mostra. Este facto acabou por colocar o “senhor” perante aquilo que na sua cabeça se fez luz (luz, imagine-se). As despedidas foram feitas em termos muito diferentes do rompante inicial e prometeu-se posteriormente apurar dos factos para melhor entendimento, funcionalidade e harmonia futuras. Poderia ter sido um caso sério se as circunstâncias não tivessem contribuído para diluir um possível acto violento de consequências imprevisíveis. Este episódio tem uns bons doze anos. Daí para cá temos tido conhecimento de casos que chegaram a vias de facto. Muitos deles não transitam para os tribunais porque são resolvidos internamente. Os restantes pelo que se sabe não deram em nada. Não me parece que seja a barra do tribunal quem deva resolver isoladamente a violência que se generalizou por toda a parte, mas sim a aplicabilidade das leis em primeiro lugar. Ultimamente, alguns chefes de família têm sido condenados a penas de prisão acusados de violência doméstica. Depois de saírem da cadeia vão pensar duas vezes se vão educar os filhos à pancada ou convencer o cônjuge a fazer sexo a soco e a pontapé. Tem acontecido que alguns deles se tornaram de um dia para o outro civilizados, pois começaram, por medo, a respeitar a lei, a mesma que nunca os tinha punido pelos hábitos e tradição os quais eram apenas admoestados e perdoados nos confessionários. Bater em professores não consta dos hábitos dos portugueses da Europa nem dos das ilhas. Alguma descaracterização da profissão dos professores poderá ter levado a acções menos respeitosas que descambaram em violência física. Por outro lado, algum desrespeito pelas forças da ordem, proveniente de atitudes menos responsáveis pela parte do poder político como foi o caso de mandarem banhar polícias no Terreiro do Paço que se manifestavam, contribuíram para um certo caos. Sem referências numa autoridade respeitável - umas acusadas da tradicional corrupção outras de crimes mais graves - as outras profissões que carecem de um certo tipo de autoridade e respeito teriam de sofrer também um certo desgaste de imagem. Que poderia ter acontecido à “autoridade pedagógica” senão sofrer na pele a mesma degradação de todas as outras? Uma coisa leva a outra. Mas, os professores nem sequer podem ser acusados de corrupção. É uma actividade - das poucas classes profissionais - que nada tem a ver com ela. Depois do 25 de Abril, houve casos de professores terem sido acusados por usarem uma certa violência que não passava de um empurrão sem consequências. Antes batiam nas crianças para as fazerem decorar a matéria. Os pais quando levavam os filhos à escola nos primeiros dias diziam aos mestres que não se poupassem nos esforços físicos para os ensinar. Estava mal! Era o antigamente. Mas daí a que nos dias de hoje todos queiram molhar a sopa nos professores vai um salto muito estranho e pouco qualitativo. Vem aí a legislação que vai permitir acusar os que utilizem de violência contra os professores de crime público. Já devia ter sido há muito tempo. A solução pode estar à vista. Safei-me de boa, mesmo tendo seguro contra todos os riscos. A senhora ministra da Educação, por nunca ter leccionado em turmas problemáticas, de pré-delinquência, de deficientes integrados, de alunos esfomeados, de alunos vítimas de violência doméstica, de alunos que são obrigados pelos pais a trabalhar, de alunos ensonados, etc., não sabe do que fala porque lhe faltam conhecimentos de área. A senhora ministra devia comparar a vida do técnico superior acomodado calmamente no seu gabinete de luxo e a vida de um professor que é também é um técnico superior no seu, por vezes, transformado em arena. Os gritos que alguns dão, o barulho que fazem, as provocações que verbalizam, as distracções permanentes que inutilizam estratégias para os motivar, etc., é o pão nosso de cada dia e depois disto tudo ainda se sujeitam a levar pela cara e a serem colocados com a casa às costas aqui e ali tornam os professores uma nova classe de escravos intelectuais.
manuelmelobento